Mesmo diante de um cenário de recuo na inflação e queda do dólar, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central optou por manter a Taxa Selic em 15% ao ano. A decisão unânime, anunciada nesta quarta-feira, mantém o Brasil em um patamar de juros que não era visto desde julho de 2006, aprofundando as dificuldades de crescimento e encarecendo o custo de vida para famílias e empresas.
Esta é a quinta manutenção consecutiva no patamar de 15%. Embora o BC sinalize um possível corte para março, a economia real continua operando sob uma das maiores taxas reais de juros do mundo, o que trava investimentos e reduz o poder de compra da população.
O Custo da Inércia: Economia Travada
A manutenção da Selic no nível mais alto das últimas duas décadas reflete uma política de “restrição adequada” para atingir as metas de inflação, mas o preço pago pela sociedade é alto:
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Crédito Proibitivo: Com a Selic a 15%, as taxas de juros na ponta final (cartão de crédito, cheque especial e empréstimos bancários) tornam-se insustentáveis, sufocando o consumo das famílias.
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Investimento em Queda: O alto custo do dinheiro desencoraja o setor produtivo a expandir fábricas ou contratar novos funcionários, preferindo a segurança da renda fixa aos riscos do empreendedorismo.
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Crescimento Pífio: Enquanto o mercado projeta uma expansão modesta de 1,8% para o PIB em 2026, o próprio Banco Central trabalha com uma estimativa ainda mais tímida, de 1,6% — números que revelam uma economia operando muito abaixo do seu potencial.
Inflação Sob Controle, Juros Nem Tanto
O paradoxo da atual política monetária reside no fato de que o IPCA fechou 2025 em 4,26%, o menor nível desde 2018 e dentro do teto da meta. Ainda assim, o Banco Central mantém o freio de mão puxado.
“O Comitê reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, informou o BC em nota oficial.
Entretanto, para muitos analistas, o rigor do BC ignora o arrefecimento dos preços e foca excessivamente em incertezas futuras, prolongando um cenário de crédito caro que impede a recuperação plena da atividade econômica.
Desfalque e Incerteza Política
A decisão técnica ocorre em um momento de transição e incerteza institucional. O Copom votou desfalcado de dois diretores cujos mandatos expiraram no fim de 2025. A ausência de novos nomes — que só devem ser indicados pelo presidente Lula após a volta do recesso parlamentar em fevereiro — gera um vácuo de debate dentro da autoridade monetária, em um momento em que a pressão por uma política mais voltada ao desenvolvimento social e econômico cresce.
A expectativa agora se volta para a reunião de março. Se o BC cumprir a promessa de redução, o país poderá iniciar uma lenta saída do isolamento econômico provocado pelos juros altos. Até lá, o cenário permanece de cautela e de uma economia que caminha a passos lentos, prejudicada pelo custo financeiro de sua própria estabilidade.





